Fitar esse mar salgado, pensar em quanto do seu sal são lágrimas de Portugal, saber que para lá da massa d’água estende-se a velha mãe África com seus bandos de gnus e os leões que deles se alimentam, com seus diamantes à flor do solo, com seus guerrilheiros tantos, isso tudo me leva à filosofia. E concluo que vida praiana é uma contradição em si mesma. Afinal, por que, à chegada do verão, os citadinos emigram das capitais de concreto e aço para as franjas do oceano proceloso?
Óbvio: para fugir do calor.
Agora vou contar o seguinte: esses últimos dias, segunda, terça e mesmo ontem, esses dias foram amenos na orla. Chovia um tanto, depois a chuva cessava, alguns raios de sol vazavam as nuvens e lambiam a areia com a suavidade de beijo de mãe, a temperatura média ficou nos 22°C, ideal para fornecer sensação de bem-estar ao ser humano. Ou seja: nada de calor exsudante, nem frio enregelante, nem vento ou chuva em demasia, apenas a brisa que acariciava e alguma precipitação intermitente que não encharcava; umedecia. Perfeito, portanto.
Mas os praianos? Os praianos reclamaram. Abandonaram a praia. Você caminhava pela areia e via apenas um ou outro grupo acomodado com resignação em suas cadeirinhas de alumínio, um taxidermista de tênis e sunga correndo ali adiante, uma gorda com vestido de tela jogando frescobol. Para onde eles foram, os praianos todos?
Compreendo que não entrassem n’água. A água estava da cor do caramelo queimado e, quando o banhista ultrapassava a primeira arrebentação, era envolvido em um creme espesso ainda mais escuro, que boiava ameaçador na superfície do Atlântico. Por mais que me dissessem “é alga!”, preferi a higiênica terra firme. Então, nada de nadar. Mas por que não estavam todos na areia, sorvendo o clima agradável? Não vieram para a orla a fim de escapar ao calor? Por que agora se queixavam da falta do calor?
O processo de bronzeamento também é estranho para quem não é praiano, bem sei, mas pode ser compreendido com facilidade. Basta pensar em uma salsicha no espeto. Trata-se do mesmo princípio. A mulher e a salsicha devem assar aos poucos. Assa um lado, gira, assa o outro, gira mais uma vez, um pedaço está menos assado, há que se posicioná-lo para que asse mais, e assim sucessivamente, até que ela toda esteja dourada e quente, pronta para ser comida (a salsicha, claro) e admirada (a mulher e a salsicha).
O objetivo do bronzeamento da mulher é precisamente este: ela quer ser admirada por sua nova cor, sobretudo quando voltar à cidade. É uma cor que deve contrastar com a palidez cinzenta do asfalto. Ela sentirá inefável orgulho quando atingir esse ponto de cozimento, ainda que lhe seja um orgulho fugaz, já que a cor dura no máximo uma semana. Não importa. Os olhares dos homens, concupiscentes, e os das mulheres, invejosos, esses olhares serão sua recompensa. Aprenda, portanto: a primeira semana depois do retorno da orla é a semana mais feliz para a mulher praiana, e é também feliz para o citadino, que, das calçadas urbanas, contemplará minissaias curtas como o humor das vegetarianas e diáfanos vestidos de lacinho.
Ontem mesmo eu botei a mão no bolso. Por Deus que botei. Estava bem no meio da faixa de areia da praia, olhando para o mar, e botei a mão nos dois bolsos da bermuda. Todo mundo ficou me olhando. Compreendi por quê. Porque ninguém, em toda tira de areia e mar que vai da Laguna até o Hermenegildo, ninguém estava de mão no bolso.
Mais uma contradição dos praianos: eles não admitem que alguém coloque a mão no bolso, quando estiver na areia. Mas a mão no bolso significa exatamente o que deveria significar a vida praiana: relaxamento, descontração, descompromisso. Não, os praianos não aceitam que ninguém tenha comportamento diferente do deles. Repressores, os praianos. Estranhos praianos.